Quando criança sempre tive dores nos ossos das pernas, geralmente a noite. E doía, doía mesmo, de chorar de dor. Minha mãe sempre dava um jeito com duas polainas vermelhas cor de sangue, bem velhinhas e que só serviam pra isso mesmo. Ela passava vick em minhas pernas e esfregava bem forte até ficar bem quente, depois amarrava as polainas bem forte. O paliativo servia pra que eu conseguisse dormir, e quando eu acordava já não doía mais. Mas sabe o que é estranho nisso tudo? No outro dia sempre chovia. Talvez não faça o menor sentido, mas cresci acreditando que se minhas pernas doessem era sinal de chuva. A questão é, que criamos nossas próprias verdades desde criança. Desde o mundo da fantasia, em que o bicho papão mora dentro do armário. Escolhemos no que acreditar, escolhemos o que devemos lembrar e recalcamos pro escuro, esquecemos, o que é difícil admitir. Eu sei, volta e meia nos sentimos desprovidos de controle, querendo esquecer isso ou aquilo e não conseguindo. Querendo crer em algo difícil de acreditar. Mas será, será mesmo que se quer esquecer? Será mesmo que é no improvável que precisamos acreditar? Diria Freud : "Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos...“sem querer“. No final, somos tanto, tanto, que é injusto condenar qualquer tipo de escolha. Acreditamos e criamos nossas verdades a partir do que a nossa consciência nos permite o acesso, mas tem muito mais. Sempre vai existir uma nova peça do nosso próprio quebra-cabeça a ser achada, por mais que a imagem já pareca completa. Da pra entender? Eu ainda espero ter tudo isso bem mais claro pra mim. Hoje minhas pernas estão doendo como quando era criança, e uma simples lembrança me fez viajar em minhas crenças... e me fez parar aqui. Madrugada, como sempre madrugada. Escrever continua me fazendo muito bem.
de todos eles, acho que pensei algumas boas coisas pela manhã.
Mas já faz tanto tempo pra lembrar... deixei-os no ar, pro ar. (...)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
"— Por que não ter memórias? Os buracos negros, eu quis dizer. Mas fiquei quieto, desejando apenas ter um disco qualquer de cítara tocando para que nesse momento pudéssemos interromper a conversa para prestar atenção num acorde qualquer entre duas cordas, mais um silêncio que um som. Sempre podíamos ouvir a chuva, seu bater compassado na vidraça. Ou acompanhar com os olhos as gotas escorrendo atrás do roxo e do amarelo. De pontos diferentes, às vezes duas gotas deslizavam juntas para encontrarem-se em outro ponto, formando uma terceira gota maior. Mas talvez ele achasse tedioso esse tipo de diversão. —Ter memórias — repeti." Caio F.